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FORCON
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Conhecemos uma pessoa que se veste assim ou assado e já colocamos uma série de conceitos sobre ela. Quando vamos conhecendo-a melhor, vemos que não era nada do que tínhamos pensado. Podemos afirmar com convicção que quem vê cara não vê coração. Ou que não se pode medir um livro pela capa. Certo?
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3
Certa vez uma editora ia relançar um livro de um poeta já conhecido e de qualidade “não questionável”. O editor chefe pediu para cada designer trazer uma proposta para a capa. Uma amiga me contou, sem muito entusiasmo, que a capa dela havia sido escolhida; perguntei o porquê do desanimo: tinha gostado muito mais da capa de um outro colega de trabalho que era muito mais ousada e criativa. Minha colega só tinha colocado a cara do poeta com um fundo azul, coisa que o editor chefe já tinha dito que agradaria. Considerando que essa seja uma capa ruim para um grande livro, podemos reafirmar: quem vê capa não vê conteúdo. Entretanto, essa capa pode não dizer a respeito do conteúdo do poeta, mas diz respeito aos modos de produção pelo qual passa um livro.
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1
Pobre do ator que quer ser criativo no palco e é medíocre em vida.

Nós não somos seres engavetados.

A forma como fazemos é o conteúdo que trazemos.
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Lemos livros fantásticos de como deveriam ser as escolas, principalmente no que tange a questão do conteúdo: interdisciplinaridade, conteúdos transversais, uma escola que possibilite a experiência, a formação do conhecimento, mais do que um simples engavetar do conhecimento, um professor que seja mais um guia desses caminhos do que um simples falador. Mas isso é possível se a própria escola é uma grande cômoda? Como fazer para não ser conteúdista se no fim do terceiro ano o aluno (sem luz) vai enfrentar uma prova que vai medir pura e simplesmente seus conteúdos? Como viver uma experiência em uma aula que tem no máximo 50 minutos? É possível um professor de biologia provocar os alunos na construção de uma horta e daí guiá-los para os conhecimentos ecológicos e biológicos nas estruturas de tempo e espaço que a escola tem atualmente? É possível prestar atenção em cada aluno e ouvi-los se em cada sala tenho 45 vidas? De nada adianta continuar escrevendo livros sobre pedagogia sem discutir a forma dessa escola, sem rediscutir as disciplinas de pura informação, os horários de gavetinha, o grande cadeião que se tornou a nossa escola, com professores formados em nossos shoppings educativos, preparados para o mercado de trabalho e preparando para as feiras de oportunidades.
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6
Quem quer mudar o mundo precisa lavar a sua louça. Como você vai propor uma nova forma de reorganizar o mundo se dentro da sua casa você mantém os padrões de organização tradicional?
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8
Os conhecimentos estão organizados (ou desorganizados) dentro de estruturas intelectuais que vamos formando com o passar dos anos. Cada vez que um conhecimento novo chega, outro vai te que sair, ou algum vai ter que mudar de lugar, uma nova forma de organização da estrutura intelectual terá que ser proposta.
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2
Uma obra de arte experimental provoca o expectador sensível a mudar suas estruturas de conhecimentos: a repensar. Novos conteúdos exigem novas formas: em todas as esferas da vida.
Pois podemos
ser
seres plenos.
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Eu sou...

...o alimento que como, as roupas que visto, a arte que faço, o que compartilho, a forma como organizo a minha casa, o sexo que faço...

...e todas as contradições pertencentes ao ser pleno.

“Não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária” – V. Maiakovski
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Valéria Rocha

Paisagem do filme Escritores da Liberdade,com óleo, tinta e textos de didática

O filme Escritores da Liberdade (Freedom Writers, EUA, 2007) mostra uma história real muito próxima das dos que estão se formando para o magistério: uma professora carregada de ideais transformadores que acredita na educação como meio para instituir uma sociedade mais justa e crítica. Entretanto, também como as primeiras experiências dos jovens educadores, a realidade se mostra muito mais complexa que os planos pressupostos poderiam supor.A escola representada no filme tem em sua história uma tradição de respeito. Em um programa de integração, a instituição que atende classe media e alta abre uma sala para jovens moradores da periferia da cidade. A estrutura burocrática da escola, apesar deste gesto, exclui estes alunos vindos de realidades tão díspares dos que antes ali estavam, evitando passar o mesmo conteúdo por entender que a nova turma está atrasada em relação aos estudos e não tem capacidade para chegar ao nível dos outros. Não há, como escreve Sílvia A.Martinez, espaço para culturas híbridas, entendendo por isso que cada grupo e subgrupo social têm suas características que devem ser respeitadas.
Erin, a professora idealista (vivida por Hilary Swank) recebe da turma a indiferença de quem não está em diálogo. A maioria dos estudantes de sua sala são negros ou estrangeiros, grande parte vivendo em permanente clima de violência por conta do espaço em que vivem e por suas participações em gangues. A princípio, a professora tenta aplicar seu plano de aula, ensinar a literatura que está no currículo escolar, mas logo começa seu desencanto, os estudantes não têm interesse em leituras ou mesmo na vida institucional. Não existe uma “predisposição natural dos alunos em serem alunos: o aluno ideal é mera abstração ”. Porém, apesar dos objetivos gerais da escola serem diversos aos da educadora, Erin opta por tentar entender a vida de seus alunos para que se possa inserir o conteúdo em relação às suas vivências pessoais. O processo de aprendizagem não é mais, então, apolítico: esta relação tem história, está inserida num contexto sócio-econômico que não pode ser ignorado. O professor é um agente político e quanto mais ele se perceber assim, maior o senso de criticidade acerca do conteúdo que transmite. Indagando sobre seus medos e perspectivas, ainda que o diálogo comece seco e mesmo bruto, Erin prepara novos parâmetros para sua aula. Percebe como a violência perpassa todos os discursos, como os grupos, que são agredidos pela sociedade como um todo, se matam entre si, em busca de auto-afirmação ou por qualquer outro motivo (poderíamos também analisar a falta de motivos, a apatia e a desesperança que nosso tempo reserva principalmente aos menos favorecidos economicamente). Trabalha então com outro livro: O Diário de Anne Frank, onde pode demonstrar como o ódio de um grupo quase exterminou muitos outros e como isto foi visto por uma jovem de idade aproximada à deles. E ainda, aproveitando a riqueza de suas experiências, propõe que cada um escreva um diário. Na escola, a idéia não é bem vista, por já considerarem por unanimidade o fracasso daquele grupo; logo, a instituição nada faz para ajudar, não oferece livros nem apoio, o que não permite uma interdisciplinaridade que seria tão pertinente.
Este é um relato de experiências que nos são muito próximas. A não é mais crida como algo de valor para a vida em sociedade, os valores que ela passa sofrem um gigantesco embate com os valores que a mesma sociedade que a regula constrói: a ética destituída de sentidos, o mercado de trabalho afunilado aos que desde sempre possuem o comando deste. Em cursinhos comunitários é comum encontrarmos jovens que sonham com a universidade pública e com carreiras estáveis; todavia, o estofo cultural que herdaram de anos de derrocada da educação não lhes dá grandes chances de alcançarem seus objetivos. Resta assim a frustração, muitas vezes resultando em barbárie.
Para fugir disso, Erin, acreditando que é preciso “lutar contra aqueles que nos fazem menor”, propõe confiar em seus alunos. Promove atividade extra-classes que são de extrema importância dentro da cultura jovem, conforme Martinez, por estenderem a relação professor-aluno para além da sala de aula, um ambiente sufocante, restritivo e fragmentado da geografia a qual pertence . Variando a abordagem Erin refaz a relação com os discentes a cada instante, conhecendo seus segredos escritos – os próprios entregam a ela para que leia. Assim, sem ignorar os aspectos técnicos-conteudisticos, a professora faz uma didática onde esta abordagem não está em desacordo com o fator político, antes interligados . Esta entrega ao trabalho que desenvolve acarreta problemas na relação de Erin com os demais professores, a diretora e mesmo com o pai e o marido. Sem que se apontem vilões para a história, mas é preciso entender que as relações políticas e afetivas estão integradas; é preciso então que estejam também na vida fora da escola, como a educadora esperava de seus alunos. A partir destes trabalhos, os alunos começaram a expandir seu pensamento crítico (não é possível dizer que não tinham, visto que entendiam as exclusões que enfrentavam) em relação à realidade que os cercava. A confiança colocada no grupo foi entendida como confiança em cada um como indivíduo, não como objeto. No artigo citado, Dubet conta que sua experiência como professor começou a ter mais equilíbrio entre seu desejo e o do coletivo a partir do momento em que se interessou por cada um, sabendo seus nomes, conversando. Claro que esta não é uma atividade fácil quando se têm dez turmas de cinqüenta alunos, mas e possível em parte. Uma possibilidade que exigiria mudanças estruturais imensas, cada professor, ainda que desse aula em diversas turmas, ficasse responsável por uma, tendo maior contato com esta. Isto acontece em alguns centros educacionais, mas não parece ser, nem de longe, uma possibilidade para as Secretarias de Educação.
O entendimento é co-participado, nasce do diálogo horizontal, onde se estimulam curiosidades mútuas em busca da criticidade . De modo geral, os textos de didática que utilizei para esta análise demonstram a necessidade da democratização do saber, compartilhando desde os conteúdos específicos até os gerais, como a utilidade da escola, as regras e direitos a serem seguidos. O filme mostra esta necessidade nos trabalhos desenvolvidos pela professora e seus alunos, participando do fato concreto que, se não modificam subitamente a realidade, possibilitam que se volte a ver a construção da História como algo não inexorável e, portanto, passível de mudanças.
Tadeu Renato
- Bibliografia

LIBÃNEO, José Carlos. Didática. Cap.06. São Paulo: Cortez, 1994.
DUBET, François.Quando o sociólogo quer saber o que é ser professor. Tradução de Inês Rosa Bueno. Entrevista concedida à Angelina T. Peralva e Marília Sposito.
MARTINEZ, Silvia Alicia. A cultura jovem na ótica dos(as) professores(as) de uma escola de Ensino Médio, in Reinventar a Escola, organização de Vera Maria Candau. 3º ed. Petrópolis: Vozes, s/d.
CANDAU, Vera Maria. A didática em questão. Cap 1. 19º ed. Petrópolis

Formação Continuada de Arte-Educadores

Formado em Educação Artística pela UNESP e membro dos NIS Carlos Eduardo, nosso Cadú, acaba de defender sua tese de mestrado na aréa de Educação e Ensino Público, com indicação a publicação.
Aqui, em primeira mão, o resumo da mesma.

A pesquisa visa analisar a política de formação continuada, dirigida aos professores de Artes da rede municipal de ensino de São Paulo, no período que compreendeu os anos de 1997 a 2008. A sua realização problematizou a prática de formulação dos projetos de formação continuada, tendo em vista as mudanças promovidas a partir da Lei 9.394/96, que estabeleceu as novas Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O desenvolvimento desta dissertação deu-se através da análise dos documentos oficiais da prefeitura de São Paulo e através de uma entrevista com um dos agentes responsáveis pela formulação de projetos de formação continuada. Para a fundamentação das análises dos documentos foram desenvolvidos dois capítulos essenciais à compreensão da pesquisa, que traçam um panorama sobre o ensino de Artes no século XX e trazem a discussão da formação continuada, a partir das vozes dos autores referenciais sobre o assunto. Os resultados apresentados apontam um aumento no volume das ações de formação continuada, dirigidas à rede, porém com o estabelecimento de uma política educacional que não privilegia a participação do corpo docente. No período analisado, não houve uma permanente ligação entre as diretrizes e proposições do Ministério da Educação e a prática da rede municipal de ensino paulistana. Ao final desse estudo, é possível concluir que o trabalho de formação continuada dos professores de Artes apresenta problemas estruturais, devido ao descompasso entre a formação inicial dos docentes, habilitados em uma determinada linguagem artística, e a prática escolar, que exige um trabalho com a totalidade das linguagens das artes. Sendo assim, as ações de formação continuada repensam a reorientação da política educacional do município, como também os problemas específicos da área de atuação dos arte educadores, dividindo seu tempo e seu êxito.

Cadú

Caso queira ler a integra do trabalho envie nós um e-mail: insolitasucataria@yahoo.com.br

Entre os muros da escola

No saguão do cinema a fila era grande.
Entre CHE, a história do guerrilheiro argentino, com direito a Rodrigo Santoro no papel de Raul Castro, Fiel documentário sobre o fatídico dia da queda do Corinthians para segunda divisão, entre outros filmes, elegi Entre os Muros da Escola porque futura professora que era, afinal começaria na profissão em uma semana, instigou-me ver o filme que lidasse com a temática.
“Entre os Muros da Escola” retrata de alguns dias do ano letivo de uma escola na periferia francesa.
Fui com uma amiga também professora e, me pareceu que boa parte da platéia era como nós: ou é ou será. Tal impressão surgiu conforme a história se desenrolava, a cada conflito que o docente do filme passava as reações da platéia era de um fatiga de saber que “é assim mesmo”.
A sinopse divulgada pelos cinemas diz: “Um jovem professor leciona em uma escola de ensino médio em uma escola da periferia de Paris. Enquanto ele e seus colegas se esforçam para que o ano letivo tenha o melhor rendimento possível, os alunos adolescentes correspondem com descaso e rebeldia.
A sensação era de “já ter visto esse filme antes”.
E se por um lado essa sensação não passa durante o filme todo, por outro o filme envolve por expor o contrário do que a sinopse diz.
Não se trata da velha guerra entre professores dedicados e alunos desinteressados.
Isso porque o filme expõe as dificuldades do docente de reconhecer e trabalhar diferenças, de sair do cronograma previsto e constante tensão emocional que a todo custo não pode ser exposta aos alunos. Do outro lado o filme não demonstra descaso por parte dos alunos, rebeldia sim no sentido de não pertencimento e na falta de apropriação dos assuntos abordados, entretanto profundo interesse em novas atividades apesar da resistência inicial de costume.
Por fim Entre os muros da escola vale a pena por as diversas faces do conflito escolar e suas infinitas máscaras. E apesar de tratar com pinceladas a questão institucional é centrado na difícil relação pessoal que se trava entre professores e alunos independente da vontade de ambos.

Renata Cirilo

Relato pessoal de uma experiência freiriana

Falar de Paulo Freire, relembrar aquele domingo na praça (1), ver educadores que conseguem realizar um trabalho libertador da a sensação de que as coisas ainda são possíveis. Imagináveis, sonháveis, utópicas, arautópicas. Claro que nem tudo é um mar de rosas, pelo contrário, está mais para um mar de bostas. Mas ter utopias nos faz andar. E caminhar sem dúvida é melhor do que ficar parado, congelado no tempo.

Então, o texto a seguir é o que eu, Valéria, integrante apaixonada do NIS, entendi desses dias de fórum. Quem quiser saber mais sobre o fórum Paulo Freire entre no site:
www.forumpaulofreire.org vale a pena.

Me chama atenção o quanto somos oprimido-opressores, repenso minha prática, das vezes que sou opressora, das vezes que sou oprimida. Penso no meu opressor introjetado, quando já recebemos tanto NÃO que a presença física do opressor já não se faz mais necessária, por que você mesmo, seu inconsciente, ego, não sei direito, já lhe dá a ordem, te oprime, já te explica o que não se deve fazer. E não se deve fazer, não porque se tenha uma razão racional ou afetiva, mas simplesmente porque NÃO.

Quantas vezes, quando chegamos a uma comunidade para lecionar ou para visitar, não temos o olhar do colonizador, vemos do ponto de vista da nossa cultura e a partir daí julgamos a cultura do outro. Determinada música é ruim, esse jeito de se vestir é vulgar, tal religião é inocente. Temos que ter olhos sensíveis para o diferente, fazer com que aquela comunidade pense sobre sua cultura e repensar a nossa.

Foi dito também no fórum que muitas vezes nos vemos pelo olhar do opressor e que muitas vezes pegamos esse olhar como verdade (afinal ele é a autoridade e sabe do que está falando). Eu aprendi na escola que os índios não foram escravizados porque eram preguiçosos. Será? Como é que o Tadeu (2)
, que é neto de índio, se sente? Preguiçoso? Não querer ficar trabalhando para outros, pois a natureza já me dá tudo e como escravo não ganho nada, é preguiça? Fora aquela questão que a Inglaterra lucrava horrores com a escravidão e trafico dos africanos. Pois é, mas eu aprendi na escola que os índios eram preguiçosos.

O mesmo Tadeu sempre conta que um dia a professora de artes perguntou para ele se ele era bobo, e que para artes ele não levava jeito. Já pensou se ele leva a professora a sério?


(1) Vide artigo tal nesse blog.
(2) O autor do artigo já citado. E meu namorado.

VALÉRIA ROCHA

Pra começo de conversa

Em 2005 entrei na faculdade de Filosofia. Logo tratei de me aproximar daquilo que me parecia o caminho de maior participação social que eu poderia ter: a educação. Manifestei interesse para um colega de classe – um frei! – e fui convidado a dar aulas de alfabetização – numa igreja! - para jovens e adultos. Ser educador, naquele momento, me parecia o trabalho mais político que um intelectual poderia realizar e pensei, dentro de minha utopia, que aquele professor que fazia seu trabalho sem entusiasmo ou apenas por obrigação mercadológica, era o pior traidor da classe . Em outra oportunidade escrevo uma crônica sobre isso.

Pois bem, apareci diante de um seleto grupo de sete alunos; foram escolhidos entre os “atrasados”, formando uma turma extra. Com minha didática fictícia (em potencial, somos todos educadores; em ato, isto é bem discutível), passei o que eu sabia sobre as primeiras letras e o que eu quase não sabia sobre os números. Quase nada foi conseguindo nesta relação. Precisava de ajuda teórica, já que eu não confiava na prática que via nos meus colegas de trabalho. Foi quando fui atrás do autor que conhecia apenas de nome: Paulo Freire e sua obra fundamental, a Pedagogia do Oprimido. Ali encontrei algo que dialogava com o que eu pensava sobre a educação, principalmente com aquele grupo específico. Durante seis meses usei de teatro, jogos, conhecimentos e experiências dos educandos. As aulas chamavam a atenção das outras turmas, que também desejavam participar. Gostaria de dizer que aconteceu como naqueles filmes de professores que revolucionam uma escola inteira, mas não foi bem isso. Ao fim do semestre alunos saíram, outros entraram no meio do caminho. Alguns aprenderam a ler e a escrever.

Por falta de recursos financeiros (o trabalho era voluntário) precisei deixar as aulas. E a faculdade. Voltei em 2007 ao curso de Filosofia. No 3º semestre encontro a aula de Filosofia da Educação. O professor, um apaixonado pela área. Talvez paixão não seja a palavra, mas fica assim mesmo. Ele volta ao assunto Paulo Freire. Mas desta vez, o livro utilizado é Pedagogia da Autonomia, considerado uma síntese de todo o pensamento do grande educador. Ao mesmo tempo em que o lia, trabalhava no registro das experiências do NIS, revendo o roteiro das atividades que realizamos em 2006. Enquanto revejo as fotos, tudo parece fazer uma ligação: a atividade da caça ao tesouro parecia com o que o livro descrevia sobre a luta contra a inexorabilidade da História. A educação feita na praça em forma de jogo era a exigência de alegria para a educação, etc, etc.

Enfim, Paulo Freire aparecia para minhas idéias como conceituaização de uma ação que nosso grupo já vinha realizando. Tratei de colocar isso no papel, fazendo assim o trabalho que a faculdade me exigia, e refletindo sobre o trabalho do Insólita. Este artigo foi apresentado no último congresso Paulo Freire.

Para ler o artigo apresentado no evento na integra clique aqui.

Tadeu Renato

O boneco na Escola Governador Mário Covas: a experiência

O teatro de bonecos é uma espécie de divertimento popular que consiste em representações dramáticas, por meio de bonecos, que podem representar personalidades. Neste tipo de teatro, os bonecos ganham características que são valorizadas exageradamente e em certos casos, os personagens ganham como sobrenome essas características como, por exemplo, João Chorão.
Este tipo de teatro envolve o conhecimento de culturas e personalidades principalmente do Nordeste, oferecendo ás crianças à oportunidade de viajar pelo Brasil usando a imaginação. Além disso, o projeto tem como objetivo o despertar para uma conscientização dos educandos sobre a reciclagem, permitindo que estes sejam multiplicadores desses conhecimentos.
Proporcionar e estimular que as crianças criem e recriem, transformem objetos simples do uso cotidiano em obras de arte - e neste caso, em bonecos - é uma meta.
A autonomia é parte do projeto. As crianças desde o início são estimuladas a conhecer e manusear os materiais sem uma "ordem" do professor, permitindo que uma relação de confiança se estabeleça nas aulas. Aprendem a questionar refletir e para tanto, estar atento às explicações e depois, se utilizar delas para construir o boneco é fundamental. Ter a responsabilidade de utilizar os materiais da melhor maneira possível é conquista deste trabalho.

O boneco na escola Gov. Mario Covas: a experiência.

A escola Governador Mário Covas tem sua comunidade formada também por imigrantes nordestinos e assim, muitas crianças têm em sua rotina, costumes desta região.A unidade escolar está localizada no bairro de Itaquera, próximo ao Conjunto Habitacional José Bonifácio, extremo da zona leste de São Paulo. O acesso é dificultado para quem não reside no bairro e também para os moradores que necessitam se locomover para o centro ou mesmo para bairros próximos.Nesta localização, a locomoção das crianças para museus e espaços culturais localizados no centro da cidade é bastante dificultada. O SESC Itaquera e o Parque do Carmo são duas opções de lazer e cultura para a população local e ainda assim, o transporte é precário, e as vezes insuficiente. E é desta forma que os educadores se tornam peças essenciais na formação artística dessas crianças, trocando experiências com elas. A comunidade é predominantemente de baixa renda, freqüentando a escola como espaço de formação e de possível ascensão social.
A proposta de desenvolver durante as aulas de Artes, um projeto sobre Teatro de Mamulengo partiu de alguns pontos como: a integração das linguagens artísticas através do teatro, e ainda havia a possibilidade de também dar enfoque á reciclagem, uma vez que nossos bonecos seriam feitos de garrafa pet. Fiz a proposta às salas de 4ª séries do ensino Fundamental I e os alunos aceitaram fato de suma importância no início do trabalho na escola em 2008, prevalecendo o diálogo. Proposta aceita, iniciamos nosso trabalho.
Primeiro passo: apresentar o teatro e o boneco, coisas tão novas ao cotidiano dessas crianças especialmente na questão artística. E claro, o trabalho coletivo, já que é impossível pensar em teatro sem pensar que ele é coletivo.As próximas etapas exigiram o trabalho em casa, recolhendo garrafas para serem transformadas em bonecos. Foi difícil conseguir que todas as crianças trouxessem as garrafas e para que o nosso trabalho não fosse prejudicado, o auxílio das professoras e funcionários da escola foi fundamental, recolhendo garrafas.
Nesse tempo, as aulas se pautaram na construção de personagens, através de um questionário contendo informações que auxiliariam na formação do boneco como: nome, idade, profissão e etc. E também jogos teatrais... Em grupos.
Para que uma peça tenha sucesso, ela precisa de um cenário e no caso do teatro de mamulengo, é preciso ainda uma banda que faça interação com a platéia. Aí enfrentamos um obstáculo: como fazer com que as crianças se interessem sem pressioná-las para realizar uma tarefa. Pensamos então que seria uma boa idéia que todos construíssem os bonecos e depois desta etapa, cada criança ficaria a vontade para escolher como seria sua participação neste trabalho, se seria encenando a peça, confeccionando o cenário ou ainda como músico da banda.
Conseguimos as garrafas!Vai começar o trabalho prático!
Assim como a garrafa que pode ser reciclada, recolhemos jornal que já havia sido lido para compor nosso trabalho. A garrafa vai ganhando forma com uma bola de jornal que vira o olho esquerdo, depois outra bola e temos o olho direito, e assim, até completarmos o rosto.
"É agora que a gente vai pintar?"
A ansiedade é fator a ser – muito – levado em conta. Foi difícil para as crianças tentar, a principio, imaginar que uma garrafa de água pudesse virar um boneco. E aconteceu! O jornal cortado em pedaços e misturado com cola e água, ganha resistência e deixa as garrafas fortes.
Durante muitas aulas nosso boneco foi tomando forma de "gente", sem pressa, apesar do tempo curto, pois não queríamos que os bonecos desmontassem no fim do projeto ou até mesmo no meio da apresentação...
Para que tudo isso fizesse sentido ás crianças e lhe proporcionassem prazer em realizar este trabalho, o diálogo e o acordo entre educador e educandos desde a proposta, no início do ano, até esta etapa foi de extrema importância. Nenhuma criança se interessa pelo que não conhece ou mesmo por algo que não se faz necessária sua participação nas decisões.
O projeto está em desenvolvimento. Uma sala está finalizando o que chamamos de "última pele", que é encobrir o jornal com papel Kraft ou mesmo papel de pão e a outra sala está na pintura dos bonecos.
Em seguida vamos iniciar as técnicas de manipulação dos bonecos e construção da história a ser apresentada, através de jogos que estimulem a criatividade e improvisação bem como a construção narrativa de uma história, com começo, meio e fim. Paralelamente, as crianças que optaram por construir e confeccionar o cenário e a trilha sonora estarão concentrados nas suas atividades. É importante ressaltar que as crianças ficam livres para escolher como farão parte desse trabalho e que apesar de cada uma ter sua atividade, elas precisam estar em sintonia, ou seja, é preciso um diálogo continuo e um caminhar em conjunto. Não fará sentido se uma história é contada, mas a música e o cenário não se relacionam com ela. A integração das linguagens se faz aí mais presente e concreta.
Nosso trabalho será finalizado com uma apresentação do teatro preparado, conhecido, envolvido e construído pelas crianças.


Thaís Borelli Mamprin